segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Não Aguento
Eu não aguento mais pessoas que começam qualquer frase com a expressão “Na verdade...” Nem aquelas que respondem qualquer pergunta dizendo “Com certeza!”. Nem mesmo as que, antes de terminar um pensamento, acrescentam um “enfim” ao discurso.Não aguento aqueles que, diante do caos em qualquer aeroporto, comentam “Imagina como vai ser em 2014”. Ou gente que, em qualquer engarrafamento de trânsito, suspira: “Imagina como vai ser em 2014.” Ou os moradores do Rio que, diante de um bueiro entupido, preveem: “Imagina como vai ser em 2014”.
Eu não aguento mais atrizes de novela que analisam seus personagens dizendo “Foi um presente do Gilberto” (ou do Maneco, ou do Aguinaldo, ou da Maria Adelaide). Ou aquelas que, tentando definir o parceiro ideal, afirmam que “humor é fundamental”. Não aguento as que nunca protagonizam a novela das oito, mas fingem que não se importam porque “é muito melhor fazer a vilã”. Ou ainda as que celebram a profissão de atriz porque, assim, podem “viver muitas vidas”.
Não aguento participantes da “Dança dos famosos” que dizem que a disputa provou sua “capacidade de superação”. Nem jogadores de futebol que, após a vitória de seu time, valorizam sua “capacidade de superação”. Muito menos modelos que após uma ida e volta na passarela do Fashion Rio sentem-se aliviadas por sua “capacidade de superação”.
Eu não aguento mais comentaristas de moda na televisão analisando o “look” dos desfiles. Nem a supervalorização dos seriados da TV americana. E atores do palco agradecendo “aos deuses do teatro”.
Eu não aguento mais prefeitos e governadores justificando atrasos nas obras porque “o edital está em fase de finalização”. Eu não aguento políticos do PT pedindo que a oposição “não politize” o escândalo mais recente do partido. Nem os ministros do Governo chamando a presidente Dilma de “presidenta”.
Eu não aguento mais ninguém dizendo que as redes sociais são “uma poderosa ferramenta de comunicação”. Não aguento filmes em 3D. Nem gente que se acha na obrigação de comprar o iPhone 6, quando lê o anúncio do lançamento para breve do iPhone 5.
Não aguento mais médicos diagnosticando como “virose” tudo que eles não sabem bem o que é. Nem pesquisas científicas amaldiçoando o ovo e seus efeitos no colesterol, anos depois de o ovo ter sido abençoado por pesquisas científicas porque, afinal, o ovo tem bom colesterol, apesar de, anos antes, outras pesquisas já terem amaldiçoado o ovo etc etc etc.
Eu não aguento mais a Regina Casé bancando a simpática. Nem a comoção nacional em torno do fim do Exalta Samba. Muito menos algum artista jovem que recebe prêmio, gritando na boca de cena “Valeu, galera!”. Eu não aguento mais o Luan Santana.
(Artur Xexéo, Revista O Globo, 19/06/2011)
domingo, 26 de junho de 2011
Sobre os livros do Mansur
Em História Social da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão, há um personagem silencioso. É ele quem bate palma desde o princípio nas rodas e dança no fundo dos terreiros. O mesmo que dá umbigadas e faz seus calundus no breu das tocas, no escuro da noite.
Um tipo recorrente. Vimos carregar bananas no calor da América Central com suas Veias Abertas. E depois padecer sob a Doutrina do Choque. É o primo pobre do Grande Irmão. O primeiro na lista de confissões de qualquer assassino econômico. Quando não está na Casa Grande, é porque já foi descansar na Senzala. Dizem alguns que o lustre da sua pele traz a lembrança distante do Ébano.
Não faz viagens como Teo. Ele é Pelé quando nasce em Três corações e vira Rei. É Malcolm X quando sai de Boston e tenta a vida em Nova Iorque. Este ser, que enriqueceu João Havelange, na pobreza foi socorrido tão somente pela libertadora pedagogia do oprimido. As marcas que ele traz no seu corpo, por vezes cabisbaixo, cansado e desanimado, falam mais do que mil palavras.
Falo do Negro, que vive dentro de uma sociedade que não está disposta a recebê-lo de forma minimamente amistosa. Ele, que não devia depender de forma alguma de qualquer ajuda que não viesse de sua própria força interior. Entretanto, ainda hoje se vê muitas vezes dominado por aquele que um dia, num ápice de ironia e crueldade, jurou libertá-lo para todo e eterno sempre.
Alvo de mil investidas daquele que o escravizou e o apartou de sua terra, o Negro não pode permitir a si ocupar o papel de vítima ou qualquer outra posição que implique numa atitude passiva diante dos fatos. E os fatos estão aí para quem quiser ver. Ele precisa sempre ser duas vezes melhor se quiser ser reconhecido. Ele tem de estar atento à sua cor e aqueles que compartilham da sua cor, porque será cobrado por eles caso sua conduta não seja condizente com o que esperam. Ele também tem que estar junto de sua família, para defendê-la do turbilhão de insanidades reservados a qualquer homem comum que decide viver honestamente. Não é fácil ser negro.
De todos os livros apresentados e citados brevemente nesse resumo, creio que a autobiografia de Malcolm X foi um dos textos mais inspiradores. Mesmo sem ter acesso à integridade das outras obras, pude perceber durante sua leitura algo que simultaneamente me serviu de espelho e reflexão sobre um lugar muito importante dentro da minha existência: o senso de pertencimento a uma causa comum e digna de ser defendida.
Num mundo de um romantismo em coma, esse sentimento é um estímulo a seguir sonhando e trabalhando no sentido de um futuro que se for não melhor, será ao menos diferente. Um tempo onde presidentes negros não sejam peça de ficção nem fruto de uma revolução dos bichos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Jogo político
Boa noite, presidenta. Olá, minha ministra, aceita um drink? Não bebo, presidenta. Essa é uma qualidade que eu sempre admirei numa mulher. O que, presidenta? Os pés delicados. Confesso que não compreendi, presidenta. Os pés delicados de uma mulher como a senhora podem derrubar um presidente, senhora ministra. Como, presidenta? São belos pés. Obrigada, senhora presidenta, mas ainda me sinto um pouco confusa... Tudo bem, não tem nada demais, eu também ficava assim no começo... Assim como, presidenta? Intimidada com o poder, ministra, intimidada com o poder... Com o poder, presidenta? Sim, com o poder.... mas você verá, o poder pode ser delicioso. Delicioso? Delicioso como um fruto proibido. Proibido, presidenta? Pro-i-bi-do – disse ela, enquanto mordia o colar de perólas brancas entre os lábios apertados sob os olhos semi-cerrados, dentro de seu terno vermelho bem cortado. A ministra assistia a tudo, atônita e afundada na poltrona bege em seu vestido azul, do outro lado da mesa de vidro vermelho em forma de estrela com um cinzeiro cheio no meio. Após um breve mal-estar no silêncio acarpetado do salão presidencial, a conversa seguiu.
Qual deve ser a nossa posição para a base aliada? Carinho e afeto, senhora ministra, muito carinho e afeto com a base aliada. E devemos negociar com os líderes do PSD? Claro, senhora ministra, cada vez mais acredito no seu poder de sedução. Fico lisonjeada. Não tem de quê. Dizem que eu sou um trator, presidenta. Essas pessoas não entendem nada de mulher. Tirando os ruralistas, acredito que eles não entendam nada de trator, presidenta. Seu bom humor é estonteante. Obrigada. E a oposição? Ela existe? Acho que sim, o que devo fazer? Faça o que você quiser com a oposição, massacre a oposição, amarre-a a uma cama e em trajes negros, chicotei-a, como só se faz com quem se ama. Pingue cera quente nos mamilos róseos da oposição. Desenhe com a língua a foice e martelo nas orelhas frias da oposição. Como, presidenta? Não se intimide frente aqueles... aqueles... homens quando for discursar, senhora ministra, foi o que quis dizer. No Brasil de hoje, eles é que tem que temer a nós, não é presidenta? Temer já está conosco, ministra, só faltava você. Fico uma vez mais lisonjeada, senhora presidenta, a senhora também tem um ótimo senso de humor. Toda mulher tem suas armas de conquista, senhora ministra, toda mulher sabe ser atraente quando quer. Somos mesmo um perigo. Sim, ministra, as mulheres são perigosas, principalmente quando escondem debaixo do azul celeste o fogo vermelho das revoluções, como no seu caso. E com os olhos perdidos em algum ponto entre as montanhas de Vladivostok, ela despia a pobre ministra num misto de apoio político e atração fatal. Após se recompor, ao sentir que havia passado dos limites, voltou às orientações.
A senhora está preparada para lidar com a imprensa, senhora ministra? Acredito que sim. Eles são ferozes e insaciáveis, como você deve saber. Sim. Mas você nunca deve se sentir acuada a não dizer o que pensa, ministra, por mais que eles se apressem em dizer até mesmo a cor de sua calcinha. Claro, compreendo a busca deles pela notícia. Por muitas vezes, é um trabalho ingrato, mas quando bem-feito, é sempre muito recompensador. A senhora simpatiza com a imprensa? Não só com a imprensa, minha querida, sou uma democrata. Nunca duvidei disso. Você não sabe quanto, ministra, você não sabe quanto... Está quente aqui, presidenta – disse abrindo o botão superior do vestido enquanto prendia o cabelo em coque. Venha, ministra, deixe-me mostrá-la nossas linhas de ação para o ministério da integração política. E saindo da sala, só voltaram meia hora depois.
Então, ministra, nosso planejamento foi bom para você? Claro, presidenta, delicioso como o poder. Volte mais vezes, para que possamos coordenar nossa linha de ação. Esteja certa que essa é uma de minhas prioridades de agora em diante. Que bom que nos entendemos, ministra. Sim, foi ótimo – disse ajeitando a borda do vestido enquanto a presidenta esmagava um cigarro lânguido no cinzeiro transbordante.
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quarta-feira, 8 de junho de 2011
A revolta dos cegos
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Pílula de Sabedoria - Thor de Oliveira Fuhrken Batista
domingo, 29 de maio de 2011
Outro dia estava no mercado quando vi no final do corredor um amigo da época da escola, que não encontrava há séculos. Feliz com o reencontro me aproximei já falando alto:
- Oswaldo, sua bichona! Quanto tempo!!!!
E fui com a mão estendida para cumprimentá-lo. Percebi que o Oswaldo me reconheceu, mas antes mesmo que pudesse chegar perto dele só vi o meu braço sendo algemado.
- Você vai pra delegacia! – Disse o policial que costuma frequentar o
mercado.
Eu sem entender nada perguntei:
- Mas o que que eu fiz?
- HOMOFOBIA! Bichona é pejorativo, o correto seria chamá-lo de grande homosexual.
Nessa hora antes mesmo de eu me defender o Oswaldo interferiu tentando argumentar:
- Que isso doutor, o quatro-olhos aí é meu amigo antigo de escola, a
gente se chama assim na camaradagem mesmo!!
- Ah, então você estudou vários anos com ele e sempre se trataram assim?
- Isso doutor, é coisa de criança!
E nessa hora o policial já emendou a outra ponta da algema no Oswaldo:
- Então você tá detido também.
Aí foi minha vez de intervir:
- Mas meu Deus, o que foi que ele fez?
- BULLYING! Te chamando de quatro-olhos por vários anos durante a escola.
Oswaldo então se desesperou:
- Que isso seu policial! A gente é amigo de infância! Tem amigo que eu não perdi o contato até hoje. Vim aqui comprar umas carnes prum churrasco com outro camarada que pode confirmar tudo!
E nessa hora eu vi o Jairzinho Pé-de-pato chegando perto da gente com 2 quilos de alcatra na mão. Eu já vendo o circo armado nem mencionei o Pé-de-pato pra não piorar as coisas, mas ele sem entender nada ao ver o Oswaldo algemado já chegou falando:
- Que porra é essa negão, que que tu aprontou aí?
E aí não teve jeito, foram os três parar na delegacia e hoje estamos
respondendo processo por HOMOFOBIA, BULLYING e RACISMO.
Moral da história: Nos dias de hoje é um perigo encontrar velhos amigos!
(texto da net)
